Nem sempre a arte e a cultura, que não sejam as tradicionais, encontram lugar em pequenas cidades. Um lugar em que haja arte - não a mainstream, mas aquelas alternativas, obscuras ou censuradas pelo Vaticano. Um lugar em que haja convivência - não marcada pelo prosaísmo barato, mas ligada por interesses em comum.
O
Estação Godot parece ter considerado isso ao criar esse espaço, com iniciativas como clubes de leitura, gibicontros, conversas com artistas de fora do circuito municipal, e - é claro - com o distinto Cinematographo Má Fama.
Exibindo filmes que não passariam em uma Sessão da Tarde ou na Tela Quente, há algumas exceções na programação do Cinematographo Má Fama - como filmes do Batman e do Stallone. No entanto, essas exibições são devidas por motivos alheios, para ''higienizar'' as sessões. As sessões acontecem na Casa de Cultura Pedro Wayne, a tradicional Casa de Cultura, no coração de Bagé e, portanto, meio que prestam contas ao Município. Então, vá lá... se for para acalmar aquelas almas inquietas que se preocupavam com aquele povo estranho assistindo filmes estranhos. ''Só podem estar invocando uns 72 demônios por meio de práticas blasfêmicas e/ou hedonistas!''.
Perto do vaivém da Sete de Setembro, depois que as portas se fecham, os celulares se desligam e as luzes se apagam, uma portinhola antiga, rangendo, se abre para um outro mundo.
Ou... Minto! Essa portinhola se abre antes. Antes de o filme iniciar, antes dos curtas-metragens e concertos exibidos antes dos filmes, antes mesmo de as pessoas saírem de suas posição fetais para saírem de suas casas. Antes, antes, antes, bem antes. Um antes localizado antes de Lucas Rosa, o idealizador do projeto, o idealizar. A idealização vem só depois da concepção, afinal de contas. Ele, Lucas, o idealizador, algumas vezes, talvez já tenha dito que a ideia surgiu com amigos, ao assistir e comentar filmes em grupo, até parar pra pensar: ''E se...?''.
Com certeza, essa ideia poderia ter surgido na mente de uma criança lunática após um gnomo sussurrá-la em seu ouvido e voltar, travesso, ao seu reino. Ele, hoje, está no tronco de uma árvore, colhendo cogumelos e tocando flauta; por vezes, espiando por entre os ombros de Lucas o devir de sua sementinha.
Crianças são mais hábeis para escutar mensagens gnômicas - e os adulto-crianças também, aqueles que não se deixam impregnar completamente com as ideias que pessoas pregam - caminho que, para alguns, parece ser mais fácil. Para Lucas, o idealizador, não. As suas seleções de filmes seguem uma lógica própria, meio atravessada, indo, por exemplo, de um filme chinês na sexta para um latino-americano no sábado. Seja um stag film, seja uma lost media bageense, não é o mesmo que assistir, em uma sala de cinema, a alguma banalidade. Até as coisas mais banais que se assiste no Má Fama não são só banais.
O clima, salvaguardado por obras de arte bageenses, e o cheiro de fitas velhas queimando, em estado de combustão, a crepitar lentamente, primam por uma seleção que não é, a priori, para adquirir repertório cultural, mas antes para...
(Tal qual os átrios que, para enviar sangue para os ventrículos, precisam da abertura de válvulas atrioventriculares; tal qual os ventrículos que, para ejetar o líquido vernil nos vasos, precisam da contração muscular; e os átrios, que para receber das veias o sangue oxigenado, precisam de seu relaxamento; tal qual a rima glótica que, no clímax, se abre aduzindo ar para a traqueia e, em esfíncter, se fecha permitindo que soltemos um ''ah''
Após vem uma nova respiração, mais veloz, um novo inalar, a artéria aorta irriga mais sangue ao corpo, da aorta ascendente ao arco aórtico, do arco aórtico para a aorta descendente, da aorta descendente para o hiato aórtico, que se encontra entre as aberturas diafragmáticas e a coluna vertebral.
Mas pode ser que tenhamos sido enganados por um false ending, em um filme de David Lynch? os créditos não sobem, ou uma frase sem ponto final.)
... Antes para suster eflúvios ventris.
É quando nos empertigamos um pouco mais na cadeira e dizemos pra si: ''Então vamos ver o que o diretor está querendo nos dizer''. Espiamos quem está ao lado e as silhuetas insinuam imersão. Alguém ri de alguma cena e nos perguntamos se perdemos algo - quem sabe o nosso senso de humor? Quem sabe seja só Marquês de Sade que esteja na tela, e a sua filosofia jaza sob corpos e palavras.
Aqueles que ficamos até tudo se tornar fuligem, confabulam ideias, hipóteses, impressões, ao final da sessão. Em círculo, letterboxdianos, e intelectuais que levam as suas referências no bloco de notas, e escritores com tendências esquizotípicas, e psicólogos com licença poética para diagnosticar os personagens, conversam sobre o filme. [Olhe, leitor, os diálogos que surgem desse grupo, no balãozinho sobre a sua cabeça, para cima à direita].
Bem, aquela sementinha gnômica não germina apenas para o exterior; ela estende as suas raízes para dentro. Se uma ideia fecundada em uma mente lunática gerou frutos, ainda interessa de onde ela surgiu?
Não há nada mais ancestral que a risada de um gnomo.