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Imagem de capa da notícia: Racismo ambiental no bairro Dom Bosco: 6 meses desde o desastre das chuvas
NotíciaMeio ambiente e sustentabilidade
Foto: Google Maps/Reprodução

Racismo ambiental no bairro Dom Bosco: 6 meses desde o desastre das chuvas

A forma desproporcional como o bairro sofre com os impactos de desastres climáticos, a segregação espacial e o racismo.

Foto de Luana Giovannini

Luana Giovannini

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Jornalista verificadoEstudante de Jornalismo

25 de Ago, 2026

5 min de leitura

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O bairro Dom Bosco, ao lado da UFJF, existe há mais de cem anos. Sua origem está ligada à ocupação do território por pessoas ex-escravizadas que migraram do campo para a cidade. Desde então, os moradores enfrentam a segregação espacial e os impactos do racismo ambiental. Essa situação ficou ainda mais evidente com o desastre das chuvas que atingiu Juiz de Fora em fevereiro deste ano. 

Para a professora de Serviço Social da Universidade Federal Fluminense, Ana Cláudia Barreto, esse contexto de ocupação ajuda a entender a formação do Dom Bosco. Ela explica que à medida que o bairro cresce, “a população vai se alojando em espaços de vulnerabilidade, que se não são de risco, passam a ser”. Para Ana Cláudia, residir em locais sem uma estrutura mínima necessária é o que sobra para essa população.

A professora, que atuou na Defesa Civil de Juiz de Fora, afirma que o mapeamento de áreas de risco na cidade existe desde 2007, com mais de 40 regiões identificadas. Ela também aponta que mais de 70% dos moradores dessas áreas são pessoas negras. 

(Foto: Felipe Couri/Tribuna de Minas)


A líder comunitária, nascida e criada no Dom Bosco, Eliana Neves, luta pelos direitos da população do bairro há anos. Depois do desastre das chuvas ela participa ativamente da mobilização social que ajuda os vizinhos que tiveram suas casas afetadas. Ela relata como os moradores reagiram ao volume da chuva:


“A gente imagina que Deus mandou um balde de água e jogou num lugar só. É isso que todo mundo fala. E desceu tudo de uma vez, porque a gente vê a chuva cair em gotas, mas não imagina que vai cair um balde num lugar só igual caiu. E o resto? Não caiu? A gente não entende a proporção dessa chuva que veio aí.”
– Eliana Neves, líder comunitária e moradora do Dom Bosco


No entanto, não foi um balde d’água que atingiu o bairro naquela noite. Foram as consequências de um planejamento urbano que não prioriza as pessoas, pelo menos não as que são pobres e negras. É o que chamamos de racismo ambiental, a forma desproporcional como populações marginalizadas sofrem os impactos de desastres climáticos. Segundo a professora de Arquitetura e Urbanismo na UFJF, Raquel Von Randow, é possível perceber nitidamente que a organização socioespacial de Juiz de Fora sempre privilegiou uma parte da cidade em detrimento da outra. 

No Dom Bosco, mesmo com algumas ruas ainda em risco, parte das pessoas acabou voltando para suas casas. Eliana conta que isso aconteceu porque nem todos conseguiram receber os auxílios-emergenciais.

OUÇA A ELIANA!


O DESASTRE AMBIENTAL DE FEVEREIRO NÃO FOI UM EVENTO ISOLADO E PARA A COMUNIDADE RESTOU O TRAUMA.

De acordo com a professora Raquel, “uma casa se constrói também de laços afetivos e da construção de identidade dentro do próprio território”. Por isso, para ela, melhorias como obras de drenagem e aumento de áreas permeáveis são a melhor solução, sem gerar novos traumas com a remoção dessas pessoas para outros bairros. 

Outro ponto importante para compreender o racismo ambiental é a responsabilização. Para Ana Cláudia, esse desastre entra para conta do Governo de Minas Gerais. Isso porque, na gestão de Romeu Zema (2019-2026), do NOVO, a verba de prevenção contra impacto das chuvas foi reduzida de 135 milhões de reais para apenas 6 milhões. Já para Raquel, a culpa é das três esferas de poder, Governo Federal, Estadual e Municipal, por se tratar de um problema histórico e já conhecido. 


PARA ALÉM DAS CONSEQUÊNCIAS DAS CHUVAS, O BAIRRO VEM SENDO ENCURRALADO PELA SEGREGAÇÃO ESPACIAL

Sem apoio do Estado e condicionados a uma posição de marginalização, os moradores do bairro enfrentam diariamente as consequências do racismo, da segregação urbano-espacial e da gentrificação. Durante décadas, o Dom Bosco carregou uma imagem associada à violência e à pobreza. Eliana Neves, relata que no passado, mas ainda com reflexos na atualidade, dizer que vivia no bairro dificultava até mesmo a busca por emprego.

Esse estigma, segundo ela, ainda persiste em situações cotidianas. Crianças da comunidade relatam constrangimentos ao frequentar o shopping que fica próximo ao bairro. Ela conta que seguranças seguem essas crianças ou ainda, impedem elas de frequentar e comprar nas lojas. Antes do shopping chegar, a curva do  lacet, que fica em frente ao estabelecimento, era da comunidade do Dom Bosco. Ali tinha uma quadra de futebol muito usada pelas crianças, que foi removida em um acordo entre poder público e a gestão do shopping. O campo não foi o único espaço que os moradores perderam. Onde hoje fica um hospital havia uma bica de lavadeiras que servia como fonte de renda para diversas mulheres da comunidade. 

Eliana também relata uma experiência pessoal, que acontece na sua rua e que exemplifica a situação da região. Onde antes existia uma linda vista da cidade, na rua Gustavo Dodt, agora é apenas um paredão, a parte de trás de um prédio construído na Av. Itamar Franco.  


“A gente sente o sufoco, a amarração, que 
está acontecendo com a comunidade do Dom Bosco.”
– Eliana Neves, líder comunitária e moradora do bairro


Esse processo vivenciado no Dom Bosco pode ser compreendido a partir da lógica da gentrificação. Embora não tenha ocorrido uma remoção em massa da população, a valorização das áreas do entorno provocou transformações no território, reduzindo espaços de convivência comunitária e alterando a relação dos moradores com o lugar onde vivem. Paralelamente, a área ocupada pela comunidade é classificada como de risco, o que evidencia ainda mais o sufoco relatado por Eliana.


*Matéria produzida para a disciplina de Laboratório de Radiojornalismo no curso de graduação em Jornalismo da UFJF. 

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