As políticas públicas de incentivo à cultura no primeiro mandato de Dilma Rousseff fomentaram a produção audiovisual Brasil afora. A implantação do Sistema Nacional de Cultura (SNC) visava criar uma rede descentralizada, em articulação com estados e municípios, que aderiam voluntariamente ao programa. O aumento do orçamento para o setor contribuiu para que iniciativas pudessem ser levadas adiante. Outros projetos vieram à luz graças ao ciclo experimentado pelo Programa Cultura Viva. Editais incentivavam a produção independente, democratizando a distribuição de filmes, o acesso ao público e um possível retorno financeiro aos artistas. Havia, ainda, uma atmosfera de efervescência coletiva, com ferramentas de criação cada vez mais acessíveis à população de médio poder aquisitivo.
O Rio Grande do Sul, segundo dados do governo, foi o estado que mais se integrou ao SNC. A façanha na consolidação dessas políticas se deu na ramificação da estrutura interna com iniciativas descentralizadas de produção artística, e no florescimento de projetos. Com isso, tivemos pequenas e médias produções cinematográficas retratos daquele contexto que sobreviveram a esses quinze anos de história. Documentários, embalagens ficcionais, formas experimentais. Produzidos em oficinas, curtas e longas-metragens retratavam experiências juvenis. Inquietudes. Sentimentos. Memórias. Visões sobre a vida. Brincava-se com câmeras para efeito artístico, ensaístico. Num tempo em que a fugacidade tinha adornos atentatórios à lógica algorítmica. Lembro-vos, velhas almas que agora vão suspirar, que existiu aquele mundo. Realmente construía-se, com alma e cérebro humano, todas as etapas de um projeto. Concebia-se e idealizava-se para atenções menos dispersas. Assistia-se Glee, escutava-se Katy Perry, e Michel Temer sequer tinha saído da obscuridade.
Nos rincões gaúchos, um grupo de recém-formados em cinema realizou, em 2009, uma Mostra de Curtas em Santa Thereza, que mais tarde se tornaria o Festival Internacional de Cinema da Fronteira. Experimentavam essa arte, estudantes do ensino médio e graduandos vivendo em ebulição criativa. Em 2011, o ainda embrionário Festival começa a estender suas relações para o Uruguai e, nos anos seguintes, para países limítrofes. Formada a cena audiovisual, se pecham no mesmo espaço, neófitos, e nomes já atuantes, como
Edison Larronda e Adriana Gonçalves, entre outros. É nessa época que novas parcerias se delineiam: o Ponto de Cultura, produzindo com alunos do Ifsul; o curso de Jornalismo, da Urcamp, coordenado por Glauber Pereira, produzindo Cine Jornais com monitoria de Jeferson Vainer;
o Centro de Artes da UFPel, com a locação de salas de exibição em Pelotas; e os produtores que submetiam suas obras para as Mostras Competitivas.
Nome presente como diretor de curtas-metragens nas Mostras entre 2012-2019,
Diogo Ferreira não só viveu esse momento, como também deixou registradas memórias de aspectos de Bagé. Tanto que a sua primeira produção exibida no Festival, em parceria com Larronda,
Reminiscências, apresenta fotografias de prédios históricos da cidade, muitos deles hoje não mais existentes. O mesmo ímpeto em registrar histórias antes que sejam soterradas no vão das lembranças, vemos em
Diligência, também da dupla Larronda-Ferreira. Em
Diligência, o senhor Alcides Gawblinski conta, aos noventa anos, segredos do seu ofício. Um mês depois das gravações, Alcides faleceu. Ao longo da vida, ele trabalhou construindo carroças, charretes e carretas.
O
Atelier Coletivo, reduto alternativo bageense mais saudoso da década passada, foi documentado antes de sua última noite.
Carlo Andrei e outros falam, no vídeo, sobre o casarão e sua natureza de resistência, bem como a sua importância como ponto de encontro e de vivências a quem não se encaixava em outros lugares. Digam o que digam, não se pode negar a astúcia de Diogo em deixar registrados esses depoimentos e cenas, não é? O seu acervo contém registros que marcaram época, seja ela recente, seja mais distante. Outros trabalhos, exibidos ou não em festivais, documentam práticas culturais, ações comunitárias e curiosidades pontuais. São fragmentos visuais que fotografam e capturam a cidade. Aspectos técnicos, como o uso de captação de som com equipamentos medianos, os acessíveis no mercado, ainda que mantenham certa consonância com o olhar antropológico que ele adota, era um ponto de atenção em seus primeiros trabalhos.
Mas não apenas de documentários é composto o portfólio de Diogo Ferreira. Pequenos curtas-metragens ficcionais sob a sua direção marcaram o Festival Internacional de Cinema da Fronteira.
Luxúria (2017) acompanha Victor, um rockstar interpretado por ele mesmo, que se envolve com suas fãs em casos extraconjugais nos bastidores dos shows. Casado com Márcia, ele passa a receber visitas insistentes de Natália, presidente de um fan club. Acompanhamos, eletrizados, o trio na mansão do casal. O thriller se destaca pelas atuações femininas, pela fotografia, pelo roteiro perspicaz e, não menos importante, pelas cenas de sexo explícito. A ousadia de
Luxúria é, como define Diogo, ''um rompimento com tudo o que foi feito até então'' na arte bageense.
Absinto (2015), com forte linguagem fronteiriça, conta com cenas que insinuam uma relação sexual, contracenadas por Diogo Ferreira e uma atriz portoalegrense. A escolha por ela se deu devido à dificuldade de se conseguir na cidade alguém para interpretar o papel àquela época. Sobre a inserção dessas cenas, Diogo diz que ''foi mesmo para quebrar paradigma, foi para romper com o que vinha se fazendo até então, trazer mais verdade para o cinema''. Há, na trama, outra cena que, hoje, levantaria debate sobre questões sociais e talvez restrições, ainda que estejamos falando de expressão artística.
Cartas (2013), de direção de
Diego Armstrong, foi o primeiro roteiro escrito por Diogo Ferreira. A equipe de
Cartas também enfrentou tabus e teve que trazer uma atriz de Pelotas para gravar as cenas de beijo. Com narração em off, o casal relembra o período vivido juntos, com as cartas como amarras narrativas. É um curta-metragem que, com a sua fotografia, texto e trilha sonora, articula as sutilezas dos sentimentos da separação conjugal.
No período da pandemia, em virtude de casamento, Diogo se mudou para Manaus, onde ainda faz cinema. A capital amazonense é cenário para muitas de suas últimas produções, especialmente em aldeias indígenas. As lideranças dessas comunidades, vendo-se diante de alguém com o propósito de ouvir verdadeiramente suas vozes, lhe conferiram acesso. E, nesses locais, várias películas foram produzidas, explorando os anseios e imaginário dos povos originários.
Ceifa foi escrita para ser gravada em solo gaúcho, mas foi em território amazônico que teve, enfim, concretude. Trata-se de ''uma jornada sensorial, simbólica e universal sobre a morte''. O projeto, contemplado pela Lei Paulo Gustavo foi, em 2025, lançado no circuito com exibições em teatros e espaços culturais. Nada mais a declarar sobre o filme, para que não se perca a bastante grata experiência de assisti-lo!
Como adendo, podemos citar outros projetos de Diogo envolvendo a arte cemiterial. O projeto, que apresenta a beleza do Cemitério São João, ou ''Praça da Saudade'', conta com registros das diferentes religiosidades. Além das fotografias dos túmulos, são anexados trechos sobre as histórias que jazem no local.
Hoje o cineasta, erradicado amazonense, atua fazendo filmes e ministrando oficinas de audiovisual. Ao tentar definir a si mesmo e a sua arte, ele diz: ''Enquanto autor de ficção, sempre busco o existencialismo e a verdade nua e crua, e uso linguagens diferentes em cada filme. Nem todo filme precisa de fala, e outros não têm como existir sem os diálogos, e como eu amarro os diálogos muito bem, cada palavra é pensada; sou adepto do roteiro de ferro''.
Pensando o cenário atual, Diogo reflete sobre o conflito de gerações entre a nossa e a atual: ''essa geração mais nova, ligada em celular, ligada em TikTok, influencer e tal, não foi um público formado pro audiovisual. A gente vive uma situação de ter que formar um novo público pro audiovisual. Trabalhar na formação de público, além de trabalhar nas produções''. Também acompanhando à distância o que acontece na Região da Fronteira, ele cita o Cinematographo Má Fama, do Estação Godot, que realiza exibições de filmes, debates e atividades relacionadas às artes.