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Em tempos de crise, o noticiário reflete o cansaço emocional da sociedade e levanta o desafio de se informar sem se deixar abater.
23 de Jun, 2026
4 min de leitura
Você já percebeu como, ao ligar a TV ou abrir um portal de notícias, parece que o mundo está sempre em colapso? Tragédias, acidentes, crimes, guerras, desastres naturais. É como se não houvesse espaço para boas notícias. Essa sensação deixa de ser apenas impressão: há razões históricas, psicológicas e sociais para que as notícias negativas dominem nosso cotidiano. Entender isso é fundamental para refletirmos sobre como consumimos informação e como isso molda nossa visão de mundo.
O jornalismo trabalha com critérios chamados valores-notícia, que determinam o que merece virar manchete. Entre eles, a negatividade ocupa lugar central. Uma tragédia é considerada mais relevante do que um acontecimento positivo porque gera impacto imediato, desperta emoções fortes e prende a atenção. Desde os primeiros jornais impressos, o que envolvia violência, escândalo ou desastre tinha prioridade. O ditado “se sangra, lidera” (ou if it bleeds, it leads) resume bem esse termo — e o escândalo envolvendo a morte de Euclides da Cunha em 1909 que o diga.
Mas por que nós também buscamos essas notícias? O cérebro humano tem um viés de negatividade: prestamos mais atenção a informações que representam ameaça. Isso vem de muito tempo atrás. Nossos ancestrais precisavam estar sempre alertas a perigos para sobreviver. Por isso, até hoje, uma notícia sobre um crime ou desastre desperta mais interesse do que uma sobre uma descoberta científica ou um ato de bondade. Não por acaso, a mídia aposta nesse viés: sabe que o negativo atrai mais olhares e, por consequência, mais cliques.
Um fenômeno recente que mostra bem isso é o doomscrolling. Durante a pandemia da COVID-19, milhões de pessoas passaram horas rolando redes sociais em busca de informações negativas. Esse comportamento compulsivo foi associado a estresse, ansiedade e até sintomas físicos. Pesquisas da Universidade Federal da Paraíba mostraram que o doomscrolling está diretamente ligado a sobrecarga de estresse e a formas pouco saudáveis de lidar com os problemas, como se culpar ou simplesmente se desligar das próprias responsabilidades. Ou seja, não apenas consumimos notícias ruins, mas muitas vezes nos viciamos nelas.
Do ponto de vista filosófico e cultural, há explicações interessantes. Foucault analisou como discursos de poder se estruturam em torno do medo e da vigilância. Freud descreveu mecanismos psíquicos que ajudam a entender nossa atração pelo negativo. Aristóteles já falava da catarse: ao assistir a uma tragédia, o público purga suas emoções, experimentando medo e compaixão de forma controlada. Nesse sentido, as notícias negativas atuam como uma catarse moderna, ajudando o público a expressar e aliviar suas tensões.
O consumo de notícias negativas também tem impacto social e político. Ele molda comportamentos coletivos, influencia votos, reforça discursos de poder e cria sensação de insegurança mesmo em contextos em que a violência diminuiu. Tragédias funcionam como catalisadores de emoção coletiva, gerando pertencimento e coesão social, ainda que baseados no medo ou na indignação.
O problema é que esse ciclo cria uma percepção distorcida da realidade. Embora os índices de violência tenham caído em muitos países nas últimas décadas, a sensação de insegurança continua alta. Isso acontece porque a mídia destaca cada crime, cada tragédia, cada desastre, criando a impressão de que vivemos em um mundo cada vez mais perigoso. Durante a pandemia, esse comportamento ficou ainda mais evidente, levando a OMS a falar em ‘infodemia’, termo usado para descrever a avalanche de notícias que gerava mais ansiedade do que clareza.
Ao mesmo tempo em que buscamos notícias negativas, existe uma carência de narrativas positivas. Portais dedicados a boas notícias têm público fiel, mas ainda pequeno. Isso mostra que, embora haja demanda por otimismo, o apelo das tragédias continua maior. Isso acontece porque o positivo não desperta o mesmo senso de urgência.
Mas como lidar com tanta notícia ruim sem cair no extremo do pessimismo ou fingir que está tudo bem? A saída está em buscar um meio-termo: não ignorar os problemas, mas também não se deixar sufocar por eles. O mundo tem problemas, claro, mas também tem coisas boas que muitas vezes passam despercebidas. A mídia dá destaque às tragédias porque elas chamam atenção, mas isso não significa que só coisas ruins acontecem. Cabe a nós procurar outras fontes, dosar o tempo diante das telas e lembrar que a realidade é mais ampla do que aquilo que aparece nas manchetes.
O consumo de notícias negativas revela muito sobre nós mesmos. Mostra nossa necessidade de controle, nosso fascínio pelo trágico, nossa busca por pertencimento e nossa vulnerabilidade diante da incerteza. Ao refletir sobre isso, podemos não apenas entender melhor a mídia, mas também compreender nossas próprias motivações. Assim, encontramos formas mais saudáveis de nos relacionar com a informação.
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Jeane Costa