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Imagem de capa da notícia: Quero-quero: um voo sobre Bagé
AnáliseCultura e entretenimento

Quero-quero: um voo sobre Bagé

"Quero-quero", livro de Eduarda Manzke, explora a luta por identidade e liberdade de jovens em Bagé/RS, retratando suas vozes sufocadas por realidades limitantes e a busca por um espaço para "voar" diante de um cenário de subemprego e pressão social.

Foto de Willians Barbosa

Willians Barbosa

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01 de Jul, 2026

7 min de leitura

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Lançado em maio desse ano, pela Editora Minimalismos, ''Quero-quero'', o livro de estreia de Eduarda Manzke (24), é um microcosmo de existências condensadas em Bagé/RS. Os textos possuem forte teor existencial, em que os jovens personagens se subjetivam, influenciados pelo espaço geográfico como influência. ''Como pode que ele não se veja de verdade, não saiba quem é, não tenha a menor ideia de como existe no mundo, externamente, fora de si mesmo?'' (p. 62).

Muitos dos personagens sentem que as parcas possibilidades de crescimento os impedem de voar, como se sentissem pássaros em gaiolas. Eles refletem sobre o lugar pequeno que os aprisionam e sobre a falta de espaço para baterem as asas. Adolescentes e jovens adultos que, apesar de estarem ensaiando os seus cantos, são sufocados pela sociedade, pelas famílias, pelos subempregos: é este a quem o projeto de Manske se dirige. Os contos são autônomos entre si, mas, em conjunto, constroem uma trajetória de leitura. Nesse sentido, o pequeno conto ''Remissão'', de Mário Quintana, como epígrafe, revela-se particularmente feliz, antecipando discretamente o movimento que atravessa a obra.

A ave, que dá título à obra, tem grande incidência na Argentina, Uruguai e sul do Brasil, tanto que foi consagrada ave-símbolo do estado gaúcho. O quero-quero é conhecido pelo seu canto imponente, um som bastante presente nos campos do pampa. Esse pássaro constrói os seus ninhos ao ar livre, no chão, sendo necessário defendê-los de possíveis predadores com um voo rasante. Eles são capazes de voos ágeis, em planícies abertas. Embora, a não ser no conto homônimo, o pássaro não seja citado, o quero-quero parece irradiar sentidos sobre os personagens.

No primeiro conto, somos jogados a um mundo em que, desculpem-me novamente a analogia, um par de amigos são como dois passarinhos enjaulados, espinhaçados pela realidade que os abate. Assédio sexual e teste de gravidez positivo definem a vida dos personagens vida afora. Mas ''Dívida de morte'' não trata apenas de adolescência. As doces lembranças amargas, as disfarçadas violências familiares, as frágeis esperanças humanas perpassam a narrativa. O chão que a gente pisa a vida inteira, é o mesmo chão em que os personagens tecem considerações sobre o que é possível construir sobre aquele solo. Quando deixamos de ser adolescentes e nos tornamos adultos, a semeadura de um, é a colheita de ervas daninhas de outro. 

O conto ganha tom universal quando chega a pandemia, e os personagens precisam jogar fora sonhos que não floresceram e adubar funerais. A perplexidade em definir o que acontecia é de Henrique e da narradora, e dos humanos que leem e que continuaram vivendo. Os medos, o absurdo, a necessidade de interação, as solidões compartilhadas. Mas ninguém é igual à narradora, que, na necessidade de colocar o peito em ordem, passa a indagar sobre a fragilidade de nossas relações, em especial, em momentos de tragédias. Quando se depara com a morte, a narradora se encontra pronta para, com lembranças uterinas, gestar os seus quero-queros.

A vida típica da fronteira, com os seus hábitos religiosamente mantidos, é o espaço em que se desenrola a narrativa de ''As bolachas''. Dona Rosa mantém os seus hábitos religiosamente, até que o Alzheimer, aos poucos, lhe acomete, nos trazendo a reflexão sobre o que é uma ''pessoa'' e a importância das relações pessoais.

Em ''A riqueza'', terceiro conto, a personagem revê toda a sua vida, com dor de sentir. ''Terça-feira à noite'' ilustra o encontro de dois amigos em uma fila de supermercado após anos sem se verem. O momento, marcado pela estranheza, se assemelha àquele lapso de quando olhamos para alguém e nos perguntamos, intrigados, o que sustentava certa amizade de outrora. O conto rumoreja, em uma sátira cotidiana, sobre o mistério e o absurdo da vida. Em ''O sumiço de Bernardo'', os estados internos do narrador nos mergulha em um espaço caótico e bagunçado, com cotejamentos de tortura de quem tem poder sobre ele. É um terror sobre o inferno de uma mente que precisa desesperadamente se salvar. 

''A cidade de Bagé ia acabar matando Marcelo''. Assim inicia ''O duplo'', conto que apresenta uma cidade em que venenos endêmicos correm nos interstícios das relações pessoais. O texto apresenta elementos reconhecíveis, como a ambientação, com a avenida central da cidade, a rodoviária, o frio congelante do inverno, cartazes sobre vacinação colados, as memórias sensoriais de um mundo suspenso. Também reconhecíveis, as referências culturais, como ''Codinome Beija-Flor'' e ''O Morro dos Ventos Uivantes'', dão uma dimensão cosmopolita. A trama que se desenvolve entre Mathias, Cristiane e Marcelo traz um subtexto: seja em Bagé, em Candiota ou em Yorkshire, os temas humanos transcendem fronteiras.

''Página de diário ou coragem para viver'' se diferencia dos demais textos, pelo seu formato e pela sua linguagem confessional. Tenho para mim que, se Manzke, num errado dia, tiver um lapso de sanidade, vai procurar ''Quero-quero'' em sua estante de livros, abrir na página 57 e pensar: ''por que, quando enlouqueci, não colori os cabelos que nem fazem as garotas normais?''

''Figueira'' é o encontro de duas almas que se refletem ao refletirem sobre si mesmas. Entre a grama do campo e o céu, ''ela'' e ''ele'' reagem à passagem do tempo. O rito simbólico introduz inflexões de pensamentos que deixam de ser a cada novas descobertas. O texto, filosófico, pensa sobre o ''eu'' e o ''outro'' e se desdobra quando se propõe a pensar sobre a linguagem. 

A segunda parte do livro tem, na sequência, ''O farol'', ''O homem do dia'' e ''Paixão''. ''O farol'' é um lembrete de que, para alçar voo, é preciso, antes, abrir e bater as asas. Em ''O homem do dia'', os personagens, como alebrijes, ciscam nas lembranças de infância da narradora do conto seguinte. A autora mostra que os seus escritos são também de singelezas, de pequenices humanas, e também de grandezas. O olhar infantil é, ao meu ver, o que traz beleza ao conto. ''Paixão'' é curto e talvez, em uma leitura rápida, algo se perca, mas muito nele se condessa.

''Aquelas duas'' ocupa lugar de destaque na obra. Homenagem a Caio Fernando Abreu, trata-se de uma releitura do clássico ''Aqueles Dois'', que Manzke faz dupla adaptação. A primeira, mais óbvia, é ao universo íntimo feminino; a segunda é ao contexto bageense, cujo comércio é o meio que mulheres jovens encontram para ingressar no mundo do trabalho. É uma baita contribuição para a literatura.

''Alma'' é simplesmente um dos melhores contos de ''Quero-quero'', pela narrativa, pelos diálogos, pela fluidez. Manske escreve como adulta, mas quando assume o olhar de criança, nos fornece momentos memoráveis. Nesse conto, a relação supra-humana entre os personagens se desenrola natural, e as últimas frases sondaram o meu espírito como leitor. Formidável!

Falando de relações humanas, amizades, cansaço da vida em sociedade, da ojeriza a máscaras sociais e da compreensão de que, afinal, máscaras fazem parte do jogo, o penúltimo conto transmite uma cansada sensação. O trisal de ''A outra vida'' abre mão de qualquer vão entusiasmo no capitalismo tardio e abraçam a micropolítica da sobrevivência. Eles resumem o perfil dos personagens manzkianos em seu livro de estreia. São personagens que se encontram em uma realidade engalfinhante e vivem entre se resignar e resistir silenciosamente, não crentes no sistema, mas encontrando alternativas que brotam por entre as rachaduras desse sistema.

Ambientado na praia do Cassino, o conto homônimo de ''Quero-quero'' fecha o livro com chave de diamante. Ao escrever o belíssimo conto, sobre clareza e transformação, a autora se inscreve no hall de artistas que se inspiraram nessa ave: Barbosa Lessa, Neto Fagundes, José Hernández, Manoel de Barros... 

Eduarda Manzke surge demiúrgica sobre a sua obra, adensando, em seus contos, ventos minueiros, acabando por criar um portal de luz, tracejando rotas migratórias que vão do inferno de uma vida cotidiana a um céu límpido. Os seus contos inscrevem Bagé como o espaço de suas narrativas, reconhecendo as limitações sociais e econômicas da cidade, validando leitores desesperançados e apresentando perspectivas de sobrevivência. ''Quero-quero'' apresenta realidades de uma cidade de interior, de forma internamente inquietante, observadora e sensível. Ao fechar o livro, o leitor olha o horizonte em silêncio, com um sorriso, e segue a sua vida concreta, mas com algo mudado. É o que a literatura faz.

Eduarda Manzke, a autora de ''Quero-quero''.

Palavras-chave

# Arte# Cultura# Literatura

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