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Coletivo Margem mobiliza mulheres negras em Juiz de Fora para articular afeto, saberes ancestrais e formação política
02 de Nov, 2026
9 min de leitura
De uma mesa de bar surgiu uma comunidade. Um grupo de pessoas que vivem na mesma região, que se uniram por interesses, valores, objetivos e uma necessidade em comum. É o coletivo Margem, que reúne em sua organização sete mulheres negras, afrocentradas e em movimento. A iniciativa surgiu a partir da psicóloga Thamires Ribeiro. A princípio, a ideia era criar um projeto de extensão dentro do curso de Psicologia da Universidade Federal de Juiz de Fora (UFJF), com o intuito de enegrecer o espaço acadêmico.
Mas, o coletivo extrapolou os muros da universidade. “Tendem colocar as mulheres negras na margem”, afirma Thamires. Diante desse histórico de exclusão, o coletivo ressignificou o próprio conceito para disputar outros territórios urbanos: “[Queremos] ocupar espaços onde nunca nos sentimos pertencentes, só que nós escolhemos dessa vez o espaço que a gente vai ocupar”, reforça a psicóloga Lauren Aryane, cofundadora da iniciativa.
Além do núcleo de gestão, o Margem mobiliza uma rede ativa estimada entre 70 e 80 participantes. Através da história e vivências de cada integrante, dos movimentos e grupos negros da cidade que vieram antes, o Coletivo Margem retoma raízes africanas e promove espaços seguros de escuta e convivência.

Em movimento
Na filosofia de Oxum, Divindade da cultura afro-brasileira, só molhar os pés na borda do rio não basta, é preciso mergulhar, e com vontade. É nisso que o coletivo acredita e o que usa como base para as suas atividades e para sua comunicação visual. As cores de Oxum, o amarelo e o dourado, e seu principal símbolo, o abebé, um espelho dourado, estão presentes na logo delas.
Longe de uma leitura superficial que reduz o espelho à vaidade ou estética, nos saberes tradicionais de terreiro o abebé de Oxum é arma de guerra, feitiço e articulação política. Na cosmologia iorubá, o reflexo devolve o feitiço contra os inimigos e ancora o olhar de si para si. Para o coletivo, incorporar o abebé significa assumir a beleza altiva e o autorreconhecimento como força tática de proteção e emancipação para mulheres negras.
As principais atividades realizadas pelo Margem, atualmente, baseiam-se na troca, sensibilidade e escuta. No projeto Conversa de Bar, as integrantes discutem pautas que atravessam suas vivências. Nos Ciclos de Leitura conhecem o trabalho e a escrita de mulheres racializadas. E, no Café Contracolonial, buscam valorizar as raízes da cultura alimentar.
Para Gabriele Rufino, engenheira de software, participar das atividades do coletivo foi uma experiência incrível. No seu primeiro encontro, uma roda de conversa mediada por Lauren, as participantes foram convidadas a olhar suas próprias nuances através do espelho de Oxum. “Foi um momento super comovente, onde várias mulheres ao se encararem no espelho, e ao falarem sobre o que elas viam, se emocionaram”, relatou a engenheira.

Quando Me Descobri Negra
Para o primeiro ciclo de leituras do coletivo, o grupo escolheu a obra “Quando Me Descobri Negra” de Bianca Santana, lançada em 2016. No livro, a autora traz relatos particulares e de outras pessoas sobre o processo de descoberta da negritude, abrindo as páginas com uma constatação marcante: “Tenho 30 anos, mas sou negra há dez. Antes, era morena.”
O autorreconhecimento é uma das pautas centrais mobilizadas pelo coletivo. Para Lauren Aryane, o processo de construção subjetiva de uma mulher negra demanda tempo, contexto histórico e socioeconômico, atravessando dimensões individuais e coletivas.
https://on.soundcloud.com/biGrEuGgVmpBKUnRK7
Nas águas de Oxum, cada uma delas pode desaguar sem medo. Na rotina das integrantes do Margem, o grupo se torna esse mesmo rio: um espaço onde extravasam uma para as outras todas as inquietações que guardam dentro de si.
Para Thamires, doutorando em psicologia pela UFJF, apesar da criação recente do coletivo — fundado em maio de 2025 — a organização já se fundiu à sua própria trajetória pessoal. Segundo ela, o Margem não é apenas mais uma atividade dentro do seu dia a dia. Lá dentro, antes de qualquer coisa, são amigas que gostam de se encontrar e sentem falta da presença uma da outra. “Eu vejo que faz muito parte da minha identidade, de quem eu sou, [...] mudou completamente a minha percepção de mim mesma, me fortaleceu, me potencializou” afirma a psicóloga.
Para Lauren, o Margem chegou logo após a sua formação como psicóloga, em um momento em que ela se via em meio ao “paradigma colonial” de que apenas com a conquista de um diploma ela poderia ser alguém. Nesse contexto, o Margem chegou para devolver e resgatar a dignidade de ser quem ela quer, com intensidade e sem julgamentos.
Mesmo que se encontrem em queda livre, sabem que ao desaguar vão encontrar a plenitude, o reencontro consigo e com aquelas que lhes são queridas. Mesmo que não se sintam em um momento em que tenham muito a contribuir, o coletivo não está interessado na utilidade de cada uma: está lá para servir de apoio e permitir que vivenciem o presente sem cobranças.
A África no centro
Por séculos, os europeus dominaram a narrativa da história global, utilizando a própria régua para hierarquizar o mundo. Ditavam o que era selvagem e o que era civilizado, impunham religiões, línguas, roupas, costumes e o que mais quisessem, recorrendo à violência física e simbólica para sustentar essa dominação.
Para o coletivo, ser afrocentrada é justamente retirar o pensamento eurocêntrico e substituí-lo pela valorização dos saberes vindos da África. É resgatar a ancestralidade, a cultura e as religiões não brancas, ocidentais e cristãs. Portanto, o pensamento afrocentrado surge em resposta à tentativa de apagamento histórico dos saberes negros. Essa tentativa, contudo, sempre encontrou resistência: manifestou-se no sincretismo religioso, na capoeira, na organização dos quilombos, nas revoltas armadas e na preservação da memória oral.
Essa retomada não começou ontem, o conceito de afrocentrada está ligado ao de afrocentricidade, cunhado pelo filósofo norte-americano Molefi Kete Asante, na década de 1980. O autor desenvolveu uma teoria crítica ao eurocentrismo presente nas ciências humanas e sociais e propôs que as pessoas negras fossem vistas como personagens centrais da história e não como objetos de estudo.
O pensamento afrocentrado, portanto, vai além da simples valorização da identidade étnica, ao defender que a experiência negra seja reconhecida como um ponto de partida legítimo para a construção do conhecimento e para a transformação social na contemporaneidade, assim como para as mulheres do Margem:
“Ser uma mulher negra, afrocentrada, em movimento, é derrubar vários paradigmas, é entender que a gente tem a possibilidade de nos amarmos profundamente, de sermos pessoas reconhecidas pela nossa intelectualidade, de estarmos vulneráveis diante de nós mesmas e de ampliarmos a nossa rede de apoio.”– Lauren Aryane, psicóloga e integrante do coletivo Margem
“Nossos passos vêm de longe”, relembra Thamires citando famosa frase da médica e ativista Jurema Werneck. “O nosso caminho aqui é entender que isso vem de longe, que é uma um trabalho coletivo de dar continuidade ao que foi construído por outras mãos, por outros pés, por outros corpos. E que cabe a gente honrar”, complementa.
A psicóloga ainda reitera: é impossível separar o ser mulher, do ser negra, do ser afrocentrada e do se colocar em movimento. Todas essas dimensões atravessam suas vidas e orientam suas ações no mundo.
Do presencial ao digital
Logo no início das atividades, quando o coletivo começou a se organizar, as integrantes tinham ressalvas quanto ao uso das redes, valorizando encontro físico, o presencial, o olho no olho. No entanto, ao longo do tempo, elas perceberam que as redes sociais poderiam se tornar um um espaço importante para disputar e construir narrativas, principalmente no que diz respeito à visibilidade de mulheres negras dentro do ambiente digital.
Agora, o coletivo tenta ampliar sua presença online e reforçar a proposta de uma iniciativa feita por mulheres negras. “Quem conta uma história, escolhe quais experiências destacar e quais os problemas colocar em discussão”, afirma o analista jurídico e pesquisador de tecnologia, Akleis Müller, “quando a gente produz, e aí eu me incluo enquanto pessoa negra, nossas próprias narrativas, a gente amplia as referências sobre quem a gente pode ser e quais espaços a gente pode ocupar’’ ressalta.
Apesar de não ser o foco do projeto, a presença do Margem nas plataformas digitais é essencial para a construção de uma comunidade que vai do presencial ao digital. As pautas levantadas, no Instagram do coletivo, abrem espaço para a circulação de ideias, diálogos e perspectivas políticas racializadas no ambiente digital e ampliam o reconhecimento e a representatividade da comunidade. Dessa forma, cria-se um compartilhamento em rede e uma narrativa autoral e comunitária.
Para Akleis, que também integra o Laboratório de Pesquisa e Assessoria Jurídica em violências institucionais, inovação e direitos humanos da Faculdade de Direito/UFJF (Lavid Laboratório), as redes sociais permitem que as pessoas negras construam vínculos mesmo quando elas estão em lugares geográficos distintos. A produção de conteúdo online abre espaço para transformar culturas, ideais, agendas, fortalecendo grupos minorizados. “Geralmente, o pertencimento que nasce da possibilidade de compartilhar essas experiências é traduzido também na possibilidade de encontrar pessoas que compreendem, se reconhecem em você e sabem o que você vive”, afirma o pesquisador. Essa identificação mútua passa, então, a operar como ferramenta de incidência social e articulação coletiva.
“Uma possibilidade dessa conexão é a valorização da cultura negra, é como essa comunidade pode se organizar, se mobilizar politicamente e se aquilombar”– Akleis Müller, analista jurídico e pesquisador de jurídica em tecnologia
No fim, o Margem segue o mesmo curso das águas de Oxum: recusa a estagnação e mantém-se em constante transformação. Entre encontros presenciais, ciclos de leitura, conversas de bar, táticas de comunicação digital e o resgate da ancestralidade, o coletivo constrói caminhos de pertencimento para mulheres negras que historicamente foram empurradas para as margens. Ao colocar-se em movimento, o grupo não apenas reivindica o próprio espaço, mas dá continuidade a uma linhagem de lutas erguida por gerações anteriores. É nesse movimento, entre o passado que ancora, o presente que acolhe e o futuro que ainda será construído, que o Margem encontra sua força.
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