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AnáliseCultura e entretenimento

Desenho como Forma de Vida

Em 15 de abril, celebramos o Dia do Desenhista, uma homenagem a Leonardo da Vinci, gênio do século XV. Neste texto, voltamos o nosso olhar para o nosso tempo, com o desenhista Gustavo Garcez, que nos ajuda a refletir sobre a arte do desenho.

Foto de Willians Barbosa

Willians Barbosa

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15 de Abr, 2026 • 22 dias atrás


A Última Ceia, Anunciação, Salvator Mundi. Várias obras mundialmente famosas são atribuídas, com maior ou menor grau de aceitabilidade, a Leonardo da Vinci (1452-1519). O pintor italiano, inscrito na memor(i)alidade humana, faz parte da iconografia moderna, com inúmeras releituras de suas obras. Sejam especulações sobre o sorriso enigmático de Mona Lisa, sejam estudos sobre o modelo ideal em O Homem Vitruviano, é inegável a sua relevância, além de outros campos, para a arte. Tanto que, em homenagem a ele, dia 15 de abril, comemoramos o Dia do Desenhista.



Não só desenhista, mas da Vinci é mencionado como pintor, arquiteto, escultor, anatomista, matemático, escritor, músico... Várias caixinhas para descrever a sua inquietação em desvendar os mistérios humanos. Assim como são várias as caixinhas para enquadrar as artes, quando, na verdade, elas não têm limites fixos e se relacionam entre si. O tecido que há por baixo de todas elas, na intersecção entre uma e outra, é essa ânsia em não se contentar apenas com o que nos é apresentado como mundo concreto. Em tudo o que nos cerca, podemos ver a presença do desenho. Em cadernos de crianças, como desenhos rudimentares; nos muros, como pichação ou como grafite; na pele, marcado como tatuagem, prática esta que data mais de 5 mil anos.


Remontando uma história de mais de 30 mil anos, a arte antiga se relacionava muito com crenças e rituais, como adoração ao Sol, reverência aos mortos, e magia. Todavia, somente no século XV da nossa era que artistas criativos como Leonardo da Vinci e Michelangelo foram reconhecidos como tais, ainda que dentro da tradição católica. A arte como expressão pessoal, como conhecemos hoje, foi se desenvolvendo aos poucos, assimilada pelas novas tecnologias que permitiram, pouco a pouco, que ela fosse largamente difundida entre as massas. Séculos e movimentos depois, a arte continua sendo a mais sublime expressão do homem desafiando, inclusive, os teóricos quanto ao que ela própria é. Entre as manifestações artísticas que melhor se define como tal, o desenho ocupa lugar de destaque, dada a sua forma de expressão visual amplamente aceita como arte.


A ARTE AQUI E AGORA


Um exemplo de desenhista da Região da Fronteira, Gustavo Garcez enveredou por outros caminhos para além do lápis e caderno. Desenhista desde pequeno, logo foi para o grafite e, há algum tempo, também é tatuador.


Na foto, Gustavo, na 9⁰ edição do Canoas Tattoo, em 2025, convenção de tatuagem e piercing, aparece com o prêmio da série Melhor Desenho em preto e branco. Mas, para chegar ao ponto de ser premiado, houve, é claro, uma caminhada. Em toda criança, há um desenhista e, em todas as pessoas, há uma criança desenhista. Entretanto, alguns param após crescer; outros continuam a construir mundos. Gustavo seguiu o segundo caminho. Seguir praticando, com constância, é o que diferencia quem desenha apenas bonecos com palitinhos, daqueles que se destacam na arte. Não é específica e somente um dom, mas a vontade de explorar possibilidades.



Sobre essa perspectiva, Gustavo compartilha a sua vivência ao dizer: ''O que diferencia quem evolui mais no desenho e [quem] toma gosto, é continuar. Gostei da sensação de desenhar e de ver a evolução no papel. E, a partir da continuação, comecei a tomar cada vez mais gosto e ter vontade de evoluir o meu trabalho. Desenho é uma expressão básica do ser humano. A pessoa vê que ela tem algum diferencial a partir da técnica. A gente vai experimentando, tendo curiosidade de experimentar novas técnicas, vai querer se achar nessa expressão. Habilidade vai se construindo.''


O desenho na infância abriu espaço para a adolescência no grafite. Arte mais restrita, devido às possibilidades de locais seguros para a sua expressão, o grafite projetou a arte de Gustavo pela cidade. Talvez um dos seus trabalhos mais conhecidos seja o Belchior, na área externa do Mr. Broa. Nele, podemos ver o jogo de sombras e luz com que o artista trabalha. Já o retrato de Frida Khalo, em local simbólico para ele, ganhou muito com a superfície crespa em que foi grafitada, que torna o retrato bastante realista e quase tridimensional. Ambos captam bem a essência dos artistas retratados, tornando a cidade mais viva.



Com o incentivo de seu irmão Uilian Garcez, que hoje atua em Florianópolis, ele começou a também tatuar. Um percurso que, para ele, foi natural. Atualmente este é o seu principal ofício, tendo se especializado em desenhos em preto e cinza. Atendendo no centro da cidade, Gustavo se tornou um dos tatuadores mais reconhecidos localmente. Entre os seus rabiscos prediletos, se encontram quimeras mitológicas, históricas, sonhadas ou imaginadas. Para conhecer um pouco sobre o seu trabalho, você pode conferir o seu Instagram.


A diferença entre tatuar no papel, num muro ou no corpo tem muito a ver com o treinamento do olhar: ''A própria visão vai se modificando com o tempo. Quando tu começa a desenhar, e vai para tattoo ou para o grafite, tu acaba tendo uma visão um pouco mais aprimorada de encaixe do desenho que tu vai fazer. Tu sabe ver um muro, por exemplo, de um tamanho X e ver o que dá pra fazer; uma pele, um local ali do braço, da perna, no corpo da pessoa, vê o que encaixa, o que não encaixa. Então, acho que a partir dessa constância em experimentar várias superfícies, tu acaba aprimorando muito a tua visão sobre o que dá para fazer em cada local, que técnica dá para usar'', diz Gustavo.


O tempo, além de ser um grande aliado para aprimorar a técnica artística através da visão, aprimora o próprio olhar em relação à vida. É esse olhar que o permitiu revisitar o seu passado e desenhar os seus pais, que, segundo ele, foram, desde sempre, os seus grandes incentivadores. Nas imagens abaixo, vemos o casal atravessados por signos, que, por sua vez, nos atravessam. Podemos até pensar no poder que a imagem tem em nos fazer enxergar através dos olhos do artista, em instigar a nossa imaginação, em resgatar memórias, em atiçar o nosso prazer estético. Um verdadeiro antídoto contra a tirania de um mundo que embrutece, a arte do desenho se ancora numa perspectiva que nos relembra que a experiência humana não é apenas o que nos vendem, mas também o que recebemos pelos sentidos. Quem é capaz de apreciá-la e, pela intuição, se guiar pelos seus amálgamas sinestésicos, pode se anestesiar por alguns instantes da dor que é a limitação terrena, e se guiar pelos seus sentidos mais próprios que fazem homem, homem, e não só animal. É o que torna homem, não só homem e não só animal, mas também deus.



Criando os seus próprios mundos, o artista evoca o nosso próprio eu interior, que se enriquece no simples ato da contemplação de sua arte. Ao conjurar emoções, produz o que, metaforicamente, poderia ser descrito como o néctar que nutre e eterniza a vida dos deuses. Sorvida essa substância, polinizam-se espaços secretícios, agora mais sidéreos do que antes.


É essa polinização que Gustavo faz ao ir em escolas conversar com alunos de escolas públicas sobre arte e grafite. Ao polinizar outras mentes com a semente da arte, pode apresentar essa forma de expressão aos pequenos. Na foto abaixo, ele aparece em uma oficina com uma turma da escola João Severiano. Como afirma, a cada convite para atividades em escolas, ''nunca sabe o que esperar, mas que sempre sai renovado.'' Este encontro com as crianças lhe é sempre prolífico. É quando pode passar adiante mais do que simples fundamentos do desenho, mas o deslumbramento com as possibilidades de pintar o mundo com as mãos; encantamento com os mistérios que há entre as sombras e a luz; entrega em deixar(-se) dominar pelo lápis, entre a técnica, a aptidão e a curiosidade em ver aonde irá dar o próximo traço na superfície. E, talvez o principal para as crianças, que o desenho pode representar universos imaginados, um refúgio, um modo particular de ver as coisas, impressos com o estilo pessoal do artista.



Como Gustavo Garcez define, desenho é ''o que me faz estar sempre em movimento. Hoje em dia, é essencial para mim. É o que me faz ir para outros lugares; o meu sustento; conhecer novas pessoas; e, muitas vezes até, desopilar de outras coisas que eu faço. Quando eu volto só para o desenho em si, eu me sinto como se eu tivesse ali na adolescência, voltasse a ser criança, digamos assim. É o que me faz trabalhar, é o que me faz me movimentar para fazer as coisas [...] Às vezes tem fases que eu não consigo estar muito bem, e o desenho me ajuda muito. Então, é minha vida mesmo. Não tem outra resposta que não seja dessa maneira.''


Palavras-chave

# Arte# Cultura

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