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Com apoio mútuo e participação em editais, escritores enfrentam desafios e ampliam a presença da literatura amazônica
04 de Out, 2025 • 6 mêss atrás
Em Manaus, autores independentes constroem e reconstroem a literatura amazonense por meio de trabalhos que carregam o contexto amazônico e suas múltiplas perspectivas, ultrapassando os olhares estereotipados de pessoas de fora da Amazônia. Contando com parcerias, editais públicos e um grupo cada vez mais unido, esses escritores, mesmo diante dos desafios, conseguem lançar seus trabalhos e incentivar novos autores.
Um exemplo marcante desse cenário é Jan Santos, doutorando em Educação, mestre em Literatura pela Universidade Federal do Amazonas (Ufam) e escritor premiado. Com livros que unem fantasia, encantamento e mitologia do povo amazônida, Jan escolheu, ou foi escolhido, pela escrita ainda no ensino médio. Hoje, ele é autor e coautor de diversos títulos, entre eles: A Rainha de Maio (2016); Rudá – o filho da terra e das estrelas (2023), vencedor do Prêmio Thiago de Melo; O livro do rio – Iguaraguá (2021), que narra a história de um menino chamado Ayu; Encantarias – Contos (2024), uma coleção que explora fantasia e ficção científica a partir de uma perspectiva amazônica; O Dia em que Enterrei Miguel Arcanjo e outros contos de fadas (2019), uma seleção de contos de fadas contemporâneos; e Evangeline – Relatos de Um Mundo Sem Luz (2013), sua primeira obra de ficção lançada ainda no ensino médio.
Comecei a escrever com um projeto da escola, e desde então, não parei. Posso dizer que a literatura me escolheu ali. Minha escrita é meu território, é o meu corpo e são as histórias que desejo contar, mas nenhuma experiência é individual, de modo que imagino que mostrar minha verdade pode sintonizar também com a verdade de outras pessoas.

Para ele, as condições políticas e geográficas do Amazonas atrapalham a projeção dos escritores e obriga os autores a buscarem projeções por meio das redes sociais. Além disso, Jan defende a criação de incubadoras para melhorar esse cenário. “Publicar um livro já é desafiador por si só, mas vendê-lo é distribuí-lo consegue ser mais desafiador ainda. Incubadoras de projeto poderiam ajudar, mas enquanto livro for entendido como produto e não como processo, acho complicado sugerir iniciativas que melhores esse quadro”, afirma.
Com um trabalho amplamente reconhecido, Elaine Pereira Andreatta também destaca-se como escritora, além de ser professora da Universidade do Estado do Amazonas (UEA) e doutora em Linguística Aplicada. Ela foi agraciada com o V Prêmio de Reconhecimento Acadêmico em Direitos Humanos do Instituto Vladimir Herzog (2025) e já publicou diversas obras literárias, entre elas Gabriel e a Primavera (2024), que aborda temas como abandono, aconchego, tristeza e alegria; Como uma Pipa no Céu (2023); e Álbum (2023), uma história que explora amor, despedidas e as inúmeras alegrias da infância. Além disso, Elaine possui importantes publicações acadêmicas voltadas à literatura brasileira contemporânea e ao ensino de língua portuguesa.
Elaine começou a escrever ainda na infância, escritos infantis e adolescentes que serviam para estimular a imaginação dela. Como professora, entre ministrar aulas e fazer pesquisas, escrevia roteiros de peças teatrais. “Na universidade, fazendo o curso de Letras, a escrita passou algo ainda mais frequente e, por vezes, lida por professores e publicada em pequenas coletâneas. No entanto, só publiquei livro literário individual no ano de 2023, com o livro infantil “Como uma pipa no céu, publicado pela Editorial Casa”, relembra.
Embora não seja amazonense, tendo nascido em Jóia no Rio Grande do Sul, a autora vive no Amazonas há 16 anos e, em seus livros, retrata essa vivência tanto no estado quanto na capital amazonense.
Trago nos meus textos se pretendem universais, mesmo que, em um deles, a fabulação aconteça em um contexto local. No meu primeiro livro, proponho pensar os sonhos de meninas no espaço da cidade de Manaus e sua diversidade, já nos outros, a preocupação é refletir sobre a infância e a adolescência em qualquer lugar do mundo.

Segundo ela, os principais desafios para os escritores no estado são a busca por editoras e a conciliação da escrita com o trabalho do dia a dia, sendo comum que a publicação de livros seja mais um ofício do que um serviço que proporcione retorno financeiro significativo, além da necessidade de políticas públicas de incentivo. No entanto, ela aponta que o apoio entre os escritores é significante. “O que percebo é que nós, autores, nos apoiamos: vamos aos lançamentos uns dos outros, divulgamos os livros dos colegas, compartilhamos suas vitórias e comemoramos gradualmente as conquistas de novos autores e outros conhecidos. Faltam políticas públicas de incentivo e, mesmo os editais no campo da cultura, premiam e valorizam pouco as produções, privilegiando práticas de divulgação da literatura em detrimento de publicação de obras individuais.”
Para além dos professores, a literatura amazonense também é enriquecida por escritores de outras áreas, como Eduardo Silva, radialista com 40 anos de experiência e reconhecido no estado, além de administrador e, claro, autor. Ele começou a escrever ainda na infância e manteve o ofício ao longo das décadas enquanto atuava como jornalista. “Naquela época, escrevíamos muitas cartas, para as namoradas e para os amigos que fizemos por meio dos gibis da Disney. Depois, veio o trabalho profissional no rádio e nas redações das assessorias de comunicação. Foi só após um leve, mas forte empurrão da minha filha, Leila Plácido, que é escritora, que resolvi voltar a escrever”, detalha.
Eduardo considera a literatura amazônica muito rica, principalmente por conta do valioso folclore local, que reúne histórias de diversas regiões do Amazonas, o maior estado do Brasil.
Eu penso que a cada dia que passa a produção literária local recebe mais apoio oficial e encontra eco e aceitação junto ao público, o que é muito bom, porque escrever sem ter leitor é como falar para uma plateia vazia. Nós já temos uma plateia muito boa aqui em Manaus.
Ele também ressalta que os escritores independentes, por conta com menos investimentos tanto privado quanto público, precisam aproveitar todos os eventos disponíveis para mostrar seus trabalhos. “O escritor independente deve aproveitar todos os espaços, todas as feiras e concursos literários para divulgar seu trabalho. Manaus e o estado do Amazonas estão se destacando pela promoção de diversos eventos dessa natureza.”

Outra autora de destaque em Manaus é Leila Plácido, escritora de obras infantojuvenis, de fantasia e até distópicas. Além de ilustradora, é autora dos títulos Quase o Fim (2016), A Menina que Viajou o Universo sem Sair da Cama (2020), Se um Arco-Íris Toca numa Gárgula (2020), Apenas uma Canoa nas Noites de Verão (2023) e participou da coletânea de contos Encantarias (2020). Além disso, é idealizadora da coletânea infantil Do Mato ao Asfalto (2025), novo lançamento que reúne 12 autores independentes.

O novo projeto resgata e recria o olhar do Norte por meio de narrativas que atravessam gerações, preservando a riqueza cultural que emerge das margens dos igarapés, dos beiradões e das vivências amazônicas.
A obra valoriza a tradição oral e dá visibilidade à literatura produzida na região, mostrando que nossas histórias seguem vivas e pulsantes, transitando do mato ao asfalto, da memória à palavra escrita
Entre os escritores que participam da obra está o delegado-geral da Polícia Civil do Amazonas (PC-AM), Guilherme Torres, que estreia na literatura com um conto voltado ao público infantil. Apesar de ser sua primeira experiência literária, ele destaca que o setor ainda carece de investimentos. Ao mesmo tempo, ressalta que o Amazonas é uma fonte inesgotável de inspiração. “No geral, falta bastante apoio. Embora eu não seja da área, acompanhei a trajetória de alguns escritores e posso afirmar que não é fácil. Nossa cultura é extremamente rica, mas ainda pouco explorada. Os mitos, as histórias, tudo isso é uma grande fonte de inspiração para a literatura amazônica.”

Além do delegado Guilherme Torres e da escritora Leila Plácido, a obra reúne autores como Jan Santos; Jefter Haad, autor e ilustrador de livros infantojuvenis; Elaine Andreatta; e Eduardo Silva. Também integram o grupo Lucila Bonina, escritora infantojuvenil e contadora de histórias, além de Antônia Plácido, Leandro Leite, Leiliane Dandara, Letícia Plácido e Lorena Souza. A publicação conta ainda com ilustrações de Yan Bentes, Leila Plácido e Jefter Haad, além do apoio do Governo do Estado do Amazonas e da Secretaria de Estado de Cultura e Economia Criativa do Amazonas (SEC).
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