As eleições presidenciais de 2026 tiveram uma peça-chave na construção de narrativa política: as redes sociais. Os canais do WhatsApp a favor do candidato Lula (PT), as supostas interferências da Meta sobre o conteúdo compartilhado pela campanha do Lula, pesquisas massivas e coordenadas com termos específicos para direcionar as buscas do Google sobre o candidato Flávio Bolsonaro (PL), entre outras ações, marcaram uma guerra virtual, política e ideológica às vésperas do segundo turno.
Em um cenário de polarização na política brasileira, os dois lados tinham certeza da vitória de seus respectivos candidatos. Entretanto, não contavam com um recorde de abstenções no primeiro turno: segundo o Tribunal Superior Eleitoral (TSE), 33,4 milhões de pessoas não compareceram às urnas, totalizando 21,08% dos eleitores. O não comparecimento dessa parcela de eleitores ajudou a acirrar ainda mais a busca pela liderança no segundo turno.
Uma campanha de “vira voto” se acentuou nas últimas três semanas após o primeiro turno, e os eleitores de Lula protagonizaram esse movimento com uma campanha forte nas redes. Junto à campanha massiva, emerge um agente importante na virada de votos: um debate na TV.
Ainda que uma boa parte da população procure notícias em redes sociais e ferramentas de buscas e uma outra parte tenha perdido a confiança nos telejornais, os debates da Band e da Globo pararam o país e evidenciaram a importância de uma discussão pública entre candidatos.
Minha análise é sobre os formatos adotados por cada emissora e como esses formatos podem ter prejudicado ou favorecido a imagem dos candidatos.
O primeiro debate: Band
O formato adotado pela Band no debate do dia 18 de outubro abriu espaço para um confronto direto entre os candidatos. Dois blocos com perguntas de mediadores em ordem intercalada e tempo de resposta de dois minutos, seguidos de um confronto direto de 15 minutos. Em vez de propostas, temas separados por blocos e respostas pertinentes ao tema, o debate foi marcado por trocas de farpas, muito barulho da plateia e os dois candidatos interrompendo um ao outro, em uma postura que parecia mais preocupada em produzir cortes para viralizar nas redes.
Tanto o Flávio Bolsonaro quanto o Lula abandonaram a posição de candidato e adotaram uma imagem combativa, pouco orientada a propostas. O resultado foi uma coletânea de vídeos curtos fora de contexto e recheados de agressões verbais e acusações que serviram para enraivecer o eleitorado. A impressão é de que pouco surtiu efeito nos indecisos, apenas acentuou o ódio entre os eleitores dos dois espectros políticos.
Os candidatos circularam pelo estúdio, e a sensação era de que poderiam se enfrentar fisicamente a qualquer momento. A tensão tomou conta; nenhum dos dois respeitou o tempo de resposta um do outro. Numa análise quase semiótica, o que se via era um senador jovem acuando um senhor de idade em um dos cantos do palco, como se pudesse diminuir a atuação intelectual de Lula ao projetar os ombros inexperientes para frente.
As redes reproduziram o comportamento dos candidatos. Entretanto, Flávio aparentou se sair melhor e ganhou o debate. Apesar da postura acusatória, Flávio parecia mais experiente e preparado para esse formato, desbancando a atuação de Lula, que, em contrapartida, pareceu nervoso e desconfortável, despreparado. Análises de jornalistas do Globo afirmam que o candidato do PL teve um maior domínio sobre o confronto. Encarando o panorama novamente, Flávio pareceu se favorecer em um debate direto, sem deixar margem para propostas.
O segundo debate: Globo
Mais esperado que o primeiro, o debate da Globo atraiu a atenção do país inteiro. O formato, no entanto, é muito diferente da sugestão da Band: quatro blocos de perguntas e respostas, com um espaço no final para considerações e conclusões. São 10 temas sugeridos pela emissora, e os candidatos podem escolher um a cada rodada de perguntas.
Esse formato abre a possibilidade de apresentar propostas de uma maneira mais estratégica e menos agressiva. Lula e Flávio tiveram o mesmo tempo para perguntas e respostas em todos os blocos e, enquanto um falava e circulava pelo estúdio, o outro era obrigado, segundo as regras do programa, a esperar no púlpito, evitando mais episódios de trocas de farpas e agressões.
Apesar de as considerações finais terem sido recheadas de comentários avessos, o debate apresentou menos interrupções dos candidatos do que na Band, com propostas apresentadas dos dois lados. Dessa vez, quem pareceu mais recatado e acuado foi Flávio. Agências de checagem como a Agência Lupa classificam mais falas do senador como imprecisas ou falsas em comparação a quantidade de frases imprecisas de Lula. Os dois candidatos tiveram declarações exageradas em alguns momentos.
Segundo análises de colunistas do jornal O Globo e do UOL, Lula ganhou o debate. O candidato apresentou uma postura mais firme e segura, apresentou propostas e se manteve agarrado aos números o tempo todo. Os pontos mais comentados foram protagonizados por ele, que afirmou ter perdido o dedo trabalhando (apontando Flávio como uma pessoa desocupada), e o momento em que citou a menina Ana Clara, morta por um tiro de fuzil em uma ação da PM no Rio de Janeiro.
Em contrapartida, Flávio parecia preparado, mas estava confrontando um candidato que disputa mais uma reeleição como presidente. Em alguns momentos pareceu fugir das perguntas e, ao contrário do debate anterior, apresentou uma atitude muito menos combativa. Apesar de todo o cuidado e de ter conseguido alfinetar Lula em alguns momentos, não foi o suficiente. As redes sociais reproduziram, até internacionalmente, o triunfo das falas de Lula, que saiu favorecido no confronto. E os cortes que mais viralizaram foram justamente os momentos de destaque de Lula no debate.
Em uma breve conclusão: cada formato estimulou o comportamento dos candidatos de formas diferentes. O confronto livre permitiu ao Flávio uma maior circulação e uma postura combativa. O tempo fechado parece ter favorecido mais o Lula, permitindo a ele dar atenção às propostas separadas por temas.
A partir desse cenário, avaliando os comportamentos diante de cada formato de debate (o da Band estimulando o confronto direto e o da Globo limitando a troca direta) e a repercussão dos confrontos nas redes sociais, talvez seja o momento de pensar em novos formatos de debates que contem com uma participação maior do público.