"Somos feitos da mesma matéria de que são feitos os sonhos, e nossa vida breve é circundada pelo sono" (William Shakespeare)
O Teatro Bageense
Um minutinho da atenção, pois antes de começarmos, precisamos citá-lo: repercutiu, um dia desses, a fala de uma figura que, em entrevista a um podcast, reclamava sobre a falta de espetáculos de teatro em Bagé e, especialmente, voltados para as crianças. Afirmar que não existe esta, ou outras expressões artísticas, em Bagé, é insistir em um lugar-comum; é uma crença ordinária que não se sustenta a um desolhar de umbigo ou a uma passada em espaços culturais na cidade. O comentário gerou incômodo na classe, que se sentiu, com toda razão, desprestigiada, pois ignora toda a produção teatral da cidade.
Júlia Maurante, 23 anos, é atriz de Bagé, fazendo parte de dois grupos em atividade na cidade:
Os Carlitos, com direção de
Michel Godinho,
e
o
Coletivo Movimento, de
Gabriel Medeiros. Enquanto o primeiro tem doze anos de atividade ininterrupta produzindo espetáculos, oferecendo oficinas de iniciação e preparação teatral; o segundo tem caráter independente, com foco especial na educação teatral para o público infantojuvenil. Ambos, inclusive, aceitam matrículas de pessoas de todas as idades que desejem ter o teatro como forma de expressão. Você pode conferir informações sobre,
aqui e
aqui.
Como resposta àquela figura, Júlia é enfática: ''Nós temos arte, nós temos teatro em Bagé. Nós temos, sim. E não é qualquer teatro; é teatro da melhor qualidade.'' Apesar de toda a movimentação que iniciativas como Os Carlitos e o Movimento fazem na cidade, o teatro bageense não conta com o apoio necessário. ''Muitas vezes nós fazemos por amor, porque nós não temos patrocínio, nós não temos apoio nem do Governo, que deveria nos ajudar. Nós não temos um teatro em Bagé que possa acolher muitas pessoas.''
A histórica falta de um local próprio para acomodar grande público é suprida pelo Cenarte, onde são realizados os espetáculos. Apresentações também são levadas a escolas carentes, além de já terem sido contratadas por outras cidades. Júlia Maurante cita as ações que, como as oficinas, acontecem todo ano. ''Nós sempre temos uma semana inteira dedicada ao teatro, com apresentações liberadas de forma gratuita, para todas as pessoas, para todos os públicos, para todas as idades. Pois todas as pessoas merecem viver com dignidade, e isso inclui o direito de assistir, prestigiar ou até fazer arte.''
Conscientes de que são os artistas contra o senso comum, a cena é caracterizada por coletivos que são solidários entre si. ''Nós estamos aqui para nos ajudar, para nos apoiar. Nós somos resistência, literalmente. Nós somos resistência'', diz Júlia. ''Nós queremos que a arte possa existir para sempre em Bagé, nós queremos passar isso para todas as gerações futuras. Então, acho muito importante que nós possamos abrir os olhos das pessoas de que nós estamos juntos, pois juntos nós somos mais fortes e, juntos, nós vamos mais longe'', abrava a atriz sobre o espírito de coletividade.
Júlia Maurante
Por desígnios do universo, as personagens de Júlia Maurante chamam a atenção pelos seus perfis irreverentes, ousados e até extravagantes. Atuando desde os 4 anos, ela passou do coral escolar para o teatro da igreja e, deste, para as oficinas de teatro, as quais lhe permite ainda hoje aprimorar técnicas e aprender novos métodos. De lá para cá, ela foi muitas: de Rainha Andrômeda à Belinha, de Blanche DuBois à Megan Boulevard, de Fada Borboleta à Julieta Capuleto. Essa coleção de papéis marcantes combina com o seu estilo cunt. O que nos faz pensar sobre teatro, sobre arte e sobre o ser ator, com ênfase no estilo de seus personagens, na indumentária destes e na expressão artística que dá vida a personas de outras culturas e épocas.
Sobre a multiplicidade de papéis em seu currículo, Júlia constata uma verdade interessante: os diretores gostam de a testar, o que resulta em personagens desafiadores que ela aceita de prontidão. De mocinhas a grandes vilãs, Júlia coleciona não apenas personagens memoráveis, como também personagens visualmente memoráveis, como as que você confere mais abaixo. São personagens, na maior parte das vezes, intensas, que demandam uma entrega gigantesca por parte da atriz. Em relação à intercambialidade ator X personagens, embora doe algo de sua essência a essas personagens, Júlia prefere dizer que ''empresta o seu corpo como instrumento para que elas possam falar''. Assim, a arte teatral lhe permite experimentar prazeres e dores, sem restrições. A atuação, nesse sentido, é, não apenas uma arte em que a sua entrega é legítima, mas um lugar em que ela pode absolutamente tudo, desde viver na pele de pessoas distintas, viajar no tempo, se revestir de personas gratas e non gratas.
Um papel no qual Júlia se entregou de corpo e alma foi o de Joana Fernandes, na peça A Fórmula de um Assassino. Nela, Joana Fernandes beija a sua empregada e amante Ana, interpretada por Martina Bittencourt. Este foi o primeiro beijo no palco de Júlia Maurante. O ato, em uma cidade bairrista, é claro, significou muito para o público e para a equipe. Ela reflete: ''[...] O teatro não é pra ser confortável. Gerar desconforto e trazer assuntos, reconhecidos como 'polêmicos', também está no nosso papel.''
Dizer que ela ''dá o sangue'' pela arte não é dizê-lo em sentido figurado: Júlia já derramou o seu próprio sangue, literalmente, sem, contudo, sair do papel. Isso aconteceu na gravação do curta-metragem
Morro dos Anjos. Cicatrizes, presentes do teatro, marcam-lhe o corpo, tamanha a violência com que, por vezes, toma os seus personagens, e a virulência que seus personagens a recebem. No instante, por exemplo, em que sua personagem Clitemnestra, em
Máscaras Gregas, apunhala outra, ela, atriz, também se feriu. Em cenas de ação, de violência doméstica... muitos acontecimentos cênicos estão inscritos, hoje, tais quais mapas em seu corpo. Como ela mesma sente na carne e define em palavras: ''Teatro é
verdade!''
Paradoxo? Ao considerar a concepção de ''verdade'', não. Gestacionada, essa vivencialidade, das entranhas do ator, a assertiva se faz verdadeira, afinal, o que pode ser mais verdadeiro do que estas profundezas? ''Sentir as luzes cênicas tocando a minha pele é o que me faz incorporar ainda mais os meus papéis''. O corpo do ator se torna o limiar entre o imaginário e a matéria, em que a fantasia encontra a fisicalidade. Uma ferramenta, que para encantar ou perturbar o público, precisa de uma matéria-prima, mais abismal, entre o éter em que descansam as almas reavivadas e as próprias intemporalidades do ator. O ponto de contato entre mundos sonhados e as efluências atorais. No espaço entre a querença do personagem e a entrega do ator, combustão, que confronta as deformidades do espectador, incitando glândulas lacrimais, arrancando-lhe risos, transpondo em reações biológicas, o indedutível.
É quando a verossimilhança pespegada é, já, verdade; o ato, já consumado pelo ator.
O Morto do Encantado Morre e Pede Passagem
E, sim, nesse fim de semana, há teatro em Bagé! Os Carlitos está em cartaz com O Morto do Encantado Morre e Pede Passagem (de Oduvaldo Vianna Filho). Em sua segunda temporada, O Morto mistura humor, crítica e muita emoção. Os ingressos podem ser adquiridos na LEB Livraria, no Mr. Broa ou com o elenco. Será nos dias 28 e 29 de março, às 20h, no Teatro do Cenarte/Urcamp.
Abaixo, algumas das várias personagens já interpretadas por Júlia Maurante.
Rainha Andrômeda – De Almas Contaminadas (estreou dia 05/12/2022)

Blanche DuBois – Um bonde chamado desejo (apresentação interna dia 31/08/2024)
Helena – Sonho de uma noite em uma grande festa de São João (estreou dia 29/06/2025)
Belinha – O doente imaginário (estreou dia 12/06/2025)
Joana Fernandes – A fórmula de um assassino (estreou dia 23/11/2024)
Lúcia – O vestido de noiva (estreou dia 11/12/2025)
Fada Borboleta – Para onde voam as borboletas? (estreou dia 11/05/2024)
Mary – Reviravoltas (estreou dia 19/12/2019)
Silvio – Futuro é Passado (estreou dia 19/12/2019)