Como apaixonado por futebol e torcedor, mas também alguém atento às questões do Brasil, defendo há tempos que (salvo raríssimas exceções) é impossível classificar nossos clubes, especialmente os de massa, a partir de um olhar ideológico rígido. Clubes e torcidas são reflexos do povo brasileiro: complexos, diversos e contraditórios. E a fala de ontem do novo técnico do Internacional, Abel Braga, é apenas mais um exemplo disso.
A declaração infeliz, preconceituosa e fora de tom de Abel evidentemente não resume a instituição. Não dá para ignorar também que se trata de um senhor de mais de 70 anos, que viveu praticamente toda a vida no ambiente do futebol (um meio historicamente marcado por preconceitos). Isso não é uma desculpa, mas um lembrete: as pessoas são, em grande parte, fruto do seu tempo e esse tempo deixa marcas.
O episódio, na verdade, nos permite evidenciar que os reducionismos ideológicos são falhos. No Rio Grande do Sul, por exemplo, tenta-se vender a narrativa de um clube popular e progressista frente a outro conservador e elitista. Os fatos, no entanto, não sustentam essa visão simplista. Isso significa negar os erros que cada um cometeu ao longo da história? Claro que não. Significa, isto sim, reconhecer que, nesse aspecto, eles (como praticamente todos os clubes de massa no Brasil) se parecem muito mais do que gostariam de admitir.
A torcida acusada de ser intrinsecamente conservadora no Estado é a mesma que abrigou a Coligay, que carrega no escudo uma estrela que não representa um título, mas a memória de um atleta negro (Everaldo), que canta os versos de Lupicínio em seu hino e que tem Gilberto Gil entre seus ilustres torcedores. E nada disso nos faz automaticamente progressistas, apenas reafirma nossa complexidade.
Da mesma forma, o clube dito progressista e popular segue conivente com cânticos homofóbicos, teve só neste ano dois treinadores proferindo barbaridades (Ramon Díaz e Abel) e mantém como patrono um dos mais fortes aliados da Ditadura no Rio Grande do Sul (o ex-governador Ildo Meneghetti). Isso tampouco os torna conservadores, apenas, assim como nós, contraditórios.
No fim das contas, movimentos e organizações de massa são naturalmente complexos, especialmente em um país continental e profundamente marcado pela desigualdade econômica e educacional. Este (e tantos outros episódios) deveriam servir para que deixemos de grenalizar questões sérias como racismo, machismo e homofobia e passemos a enfrentá-las de verdade no futebol. E isso exige, antes de tudo, reconhecer os erros que carregamos na nossa história para avançarmos enquanto indivíduos, sociedade e instituições.