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Bixo Verde Records lança B.V.R. Session Acústica com seis artistas independentes de Bagé, gravada em ponto histórico na cidade. Nos propomos aqui pensar a estética musical e possíveis conexões com a natureza.
15 de Jan, 2026 • 2 mêss atrás
Com a participação de seis músicos e bandas independentes de Bagé/RS, o selo Bixo Verde Records lançou a B.V.R. Session Acústica. As gravações aconteceram em uma casa histórica de exposições de arte no centro da cidade. Além do selo, a B.V.R. é também uma produtora fonográfica, que produziu os álbuns lançados no selo. Partindo da filosofia do Bixo Verde, surge a Bixo Verde Sessions, uma forma de gravação coletiva.
Quanto ao momento da gravação, o produtor da B.V.R., PuL Jones, explica que, ‘’como o BVR não tem uma sala grande de estúdio que comporte uma gravação de sessões com bandas, as Sessions acontecem em locais alternativos do cotidiano, a primeira foi em uma hamburgueria (porém com estética de sala de casa), e a Acústica foi em uma casa histórica de exposições de arte. Assim tornando acessível tanto pras bandas gravarem e para fomentar a BVR’’.
Florais, de Franco Evetcherry, como faixa 1, é um daqueles atos de abertura que dizem muito sobre o projeto em que está inserido, com uma mensagem condizente com o conceito que se desenha a partir daí. O músico, sob dedilhados de violão, traz uma mensagem de que ''o que passou, passou'' e que um novo tempo sempre vem, brincando com a questão do tal tempo e, sobretudo, o tempo da natureza. A tríade ''homem-tempo-natureza'' dança rodopiando e trocando posições entre si: o homem percebe o tempo que passa; o tempo passa, impresso pelos sinais da natureza; a natureza envia esses sinais para o homem que, influído por ela, age sobre o tempo. Nem tente, aqui, inverter essa roda para girar em sentido anti-horário, pois a mensagem é justamente essa: o movimento é para a frente, de acordo com os movimentos da natureza. Se ''é o que a natureza oferece, é o que eu vou desfrutar''. A fé na mãe natureza aqui é flagrante, com a ligeira inflexão da segunda parte da canção, que novamente dá indícios da ética do músico que reconhece, após o inverno, chega a primavera, com as promessas de uma nova estação. O presentear é menos do eu lírico para a amada, mas antes um lembrete a ela sobre o que a natureza dá.
Avante, a banda Suco Voador é a protagonista da segunda canção, Tudo Que Eu Quero, com um clima um tanto mais reflexivo e atento às leis herméticas. Aquela natureza que, na primeira faixa, oferece, aos homens, flores, se transforma. Agora, o homem, já agraciado pela natureza, é quem oferece ao homem o que ele tem: a sua palavra. A palavra, que ele enuncia e deseja a si e ao outro, volta para a sua fonte. O oposto, também sendo verdadeiro. A canção tem uma pegada contemporânea, ousada e, sem dúvidas, absolutamente autoral no sentido estrito da palavra. O sopro da flauta funciona como o movimento dessa palavra enunciada do eu lírico, o pensamento emitido com as vibrações de seu conteúdo, criando a atmosfera de todas as coisas que soltamos ao universo, e os riscos que, disto, decorrem. Com o clima já imerso nos fluídos que a canção anterior, conscientemente, deixou suspensos, como partículas dissolvendo-se envoltas em plasma, no ar, a canção termina. Os últimos acordes é um gesto de soltar ao ar, ar este que a faixa posterior coloca para se movimentar.
A transição para a faixa seguinte é, de algum modo, muito bem sucedida. Cibele Martinez e Rafael da Silva introduzem o samba para a session. Se antes havia a reflexão sobre o que emitimos, aqui o descompromisso boêmio é a tônica. Samba da Gabriela convida a todos dançarem na roda. Seguindo a linha até aqui, após a relação natureza-homem-tempo e homem consigo mesmo, aqui a intenção é direcionada ao objeto bonito que é visto, cortejado. A imagem singela evocada, de uma viela em uma tarde ensolarada, é ofuscada por Gabriela. Ao final, todos nós nos tornamos Gabrielas. A composição é um verdadeiro primor.
Tudo Vai, Tudo Vem. A banda Cookie Lettuce retifica a mensagem que a session imprime em nosso espírito, fazendo a gente querer fechar os olhos e escutar a mensagem que eles sopram ao ar. Se Gabriela, como em um cortejo, no último passo de sua dança, nos lançasse ao ar, aqui somos levados diretamente ao cosmos. Ainda que com uma estrela cadente se insinuando à nossa visão, as visões que temos em nosso interior são tão belas quanto. A arte, ferramenta que dá corpo etérico à imaginação humana, é contemplada à medida que os Cookie Lettuce's saúdam os entes celestes que encontraram nessa viagem. Contudo, quando voltamos a abrir os olhos, percebemos que todo esse cenário é fruto de nossa imaginação, a única via que temos para alcançar esse infinito que a banda orquestra.
Voltando ao corpo e à mente 3D, Holandesa Voadora nos guia, ainda desnorteados, para um desnorteamento de outra natureza. A natureza aqui é artificial, controlada por outras mentes e operada por máquinas. Aquela natureza humana ainda está presente, latente, como em um homem, de olhos bem abertos, no interior de um computador, procurando pelo fio que desconecte a matrix de seu córtex. Pode ser que tenhamos sido Notificados enquanto ouvíamos a faixa anterior, e aqui a banda nos alerta: isso não significa que tenhamos sido lembrados; pode ter sido apenas algo sobre a vida alheia. O movimento, que antes era da lua e da Terra, é o mesmo, só que agora é o movimento falsário do bando homínico. Todos desse bando orbitando por impulsos elétricos que originam os algoritmos e dirigem a nossa mente, enquanto o nosso corpo tenta esquecer com o rock. Demodê é um rock autoconsciente, que corre contra o tempo. Aquele tempo sem válvula de escape. Se o fluído, que outrora era como um néctar produzido na fração mínima de movimentos invisíveis, aqui os fluídos são corporais, exclusivamente humanos. ''Para convencer a juventude que tudo o que já foi escrito, ainda vale mais que ouro'' é um dispositivo narrativo que aponta para a atemporalidade do que se imprimiu como real.
Niraakaar Exists fecha a session com um vocal encorpado. Se iniciamos a session em tom primaveril, aqui é outono, com folhas caindo de uma árvore solitária, com galhos desnudos a despontar em um céu cinza. E então, após a primeira virada da música, é como se o vocalista, se fazendo corpo presente nesse cenário descrito, envocasse as forças naturais para dançarem, mas com uma prerrogativa: fazê-lo no compasso da banda. No ato final, às forças naturais, o caos inatural, por atração, se funde na unidade que a banda condensa e expele. O inatural, que, por si só, é impossível, pela negação de suas características naturais, em combustão com o que é [natural], não se dissolve nunca, mas paira, para sempre, com a sua existência amparada pela impossibilidade de retorno. O nascituro não volta ao não-ser.



