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Com a maior taxa de mortalidade por suicídio proporcional da região, Macapá enfrenta o desafio de acolher o sofrimento psíquico em meio à vulnerabilidade social. Especialista analisa o limiar entre o estresse cotidiano e os transtornos clínicos.
10 de Out, 2025
6 min de leitura
O Estado do Amapá enfrenta uma crise humanitária silenciosa, refletida nos índices crescentes de sofrimento psíquico, ideação suicida, depressão e ansiedade. Dados recentes da Secretaria Estadual de Assistência Hospitalar acendem um alerta vermelho para a saúde pública local: a capital, Macapá, centraliza 68% dos casos de transtornos mentais registrados no estado e apresenta uma taxa de mortalidade por suicídio de 9,8 óbitos por 100 mil habitantes um índice significativamente superior à média de diversos municípios da região Norte. Na vizinha Santana, o indicador fixa-se em 4,1 por 100 mil.
Na raiz dessa vulnerabilidade, fatores socioeconômicos estruturais como o desemprego, a precarização do trabalho e a baixa remuneração atuam como gatilhos psicossociais. O reflexo direto satura a rede pública: hoje, aproximadamente 8 mil pacientes adultos dependem do atendimento estatal para tratar patologias que vão da Síndrome de Burnout ao Transtorno de Estresse Pós-Traumático (TEPT).
Para compreender a complexidade desse cenário e desmistificar o cuidado em saúde mental, conversamos com o Psicólogo Diego Almeida, mestre em Psicologia e especialista na área. Na entrevista a seguir, o profissional analisa como a rotina contemporânea adoece a população e aponta caminhos para a identificação precoce de transtornos severos.
Psicólogo Diego Almeida: Especialista em saúde mental e mestre em psicologia. FOTO: Psicólogo Diego Almeida/Acervo pessoal.
Jeane: Diante de uma rotina acelerada e de pressões socioeconômicas, o que define, fundamentalmente, a construção da saúde mental?
Psicólogo Diego Almeida: A saúde mental se apoia no tripé biológico clássico: nutrição adequada, higiene do sono e atividade física. Contudo, ela vai muito além da dimensão orgânica. Trata-se de um processo contínuo de autopercepção e estabelecimento de limites. Ter saúde mental envolve a capacidade crítica de avaliar se um ambiente de trabalho, uma dinâmica familiar ou um relacionamento afetivo é saudável, ou patogênico. Não é uma conquista estática de um único dia de descanso, mas sim o cultivo diário de escolhas em benefício da própria integridade psíquica.
Jeane: A velocidade das transformações tecnológicas e as exigências do mercado parecem ultrapassar a capacidade de adaptação humana. Como evitar o esgotamento na correria do dia a dia?
Diego Almeida: O ritmo imposto pela contemporaneidade é, sob muitos aspectos, incompatível com a nossa biologia. Os direitos trabalhistas históricos, como o descanso semanal remunerado, as férias e os intervalos intrajornada, não são meras concessões burocráticas; são necessidades fisiológicas e mentais de preservação. Para mitigar o adoecimento, o desafio central reside em resgatar o tempo para o essencial: o sono reparador em quantidade e qualidade, a alimentação regular, condições dignas de trabalho e, fundamentalmente, a manutenção de redes de apoio socioafetivas.
Jeane: A Síndrome de Burnout foi incluída na CID-11 como um fenômeno ocupacional. Como o trabalhador pode diferenciar o cansaço comum desse esgotamento profissional?
Diego Almeida: O Burnout pode ser compreendido como uma resposta crônica ao estresse interpessoal e emocional sofrido no ambiente de trabalho, frequentemente observado em profissões de alta demanda de cuidado humano. A linha divisória é o nível de prejuízo funcional e sofrimento. Quando o ambiente corporativo passa a ser a fonte primária de desprazer, apatia crônica e desmotivação; quando as relações socioprofissionais se tornam hostis e a perspectiva de iniciar a jornada de trabalho evoca uma severa angústia diária, há um forte indício clínico de que o limiar do estresse foi ultrapassado. É o momento exato de buscar intervenção profissional.
"A psicoterapia não é um sinal de fragilidade, mas um ato de coragem. Ela exige que o indivíduo olhe de frente para aquilo que o adoece." Diego Almeida
Jeane: Há uma linha tênue entre a ansiedade fisiológica e o Transtorno de Ansiedade Generalizada (TAG). Como compreender esse mecanismo?
Diego Almeida: Sob a ótica clínica, a ansiedade mimetiza um sinalizador de sobrevivência. É uma reação adaptativa que nos prepara para antecipar cenários e responder a desafios futuros. Ela deixa de ser saudável e passa a configurar um caráter patológico quando se torna desproporcional, crônica e descontrolada passando a fragmentar o sono, anular a capacidade de concentração e paralisar as atividades rotineiras. O manejo clínico eficaz começa pela compreensão dos gatilhos dessa ansiedade, mapeando se a sua intensidade está adequada à realidade ou se há um sofrimento disfuncional.
Jeane: Na cobertura jornalística e no senso comum, "tristeza" e "depressão" ainda são confundidas. Qual é a distinção nosológica entre ambas?
Diego Almeida: A tristeza é um afeto humano legítimo, universal e, por natureza, transitório. Todas as emoções operam em ciclos. A depressão, por sua vez, é um transtorno neurobiológico e mental complexo. Ela compromete de forma persistente múltiplas funções vitais. O paciente depressivo experiencia uma sensação duradoura de vazio, anedonia (perda da capacidade de sentir prazer) e astenia (baixa energia crônica), o que muitas vezes inviabiliza ou torna hercúlea a execução de tarefas simples do cotidiano. A persistência e o impacto multidimensional diferenciam o quadro, exigindo diagnóstico nosológico e acompanhamento especializado.
Jeane: Romper o estigma e pedir ajuda ainda é um dos maiores obstáculos para quem sofre. Qual orientação o senhor oferece para esse momento de vulnerabilidade?
Diego Almeida: O passo inicial é identificar uma figura de apego seguro — alguém na rede de relações pessoais que ofereça escuta ativa e não impositiva, isenta de julgamentos morais. O ato de verbalizar o sofrimento e ser legitimado já possui um valor terapêutico imensurável. Na ausência dessa rede de apoio primária, o indivíduo deve recorrer diretamente aos dispositivos de saúde mental do município, onde profissionais técnicos estão capacitados para acolher a dor psíquica sem estigmas.
A porta de entrada para o cuidado em saúde mental no Sistema Único de Saúde (SUS) ocorre por meio da Atenção Primária e dos centros especializados. Em Macapá, a população pode buscar atendimento médico e psicológico nos seguintes pontos:
UBS Perpétuo Socorro (Bairro Perpétuo Socorro)
UBS Rubim Brito Aronovitch (Bairro Santa Inês)
UBS Raimundo Hozanan (Bairro Muca)
UBS Conceição Rosa Moita (Bairro Nova Esperança)
UBS Marabaixo (Bairro Marabaixo)
UBS Pacoval (Bairro Laguinho)
UBS Macapaba (Zona Norte)
UBS Unifap (Bairro Jardim Marco Zero)
CAPS Gentileza (Bairro Jesus de Nazaré) — Destinado ao acompanhamento de transtornos mentais graves e persistentes.
Telefone de Emergência: Inclua sempre a menção ao CVV (Centro de Valorização da Vida) - Telefone 188.
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